Interlúdio

As músicas para as quais eu dei meu coração falam muito melhor sobre mim do que qualquer palavra que eu pudesse proferir. No apertar do gatilho, eu sigo a linha torta, deslizando pelos obstáculos. Eu caio, levanto e me desafio de novo. Na minha percepção, a calmaria não tem vazão. Então mesmo que a tempestade tenha passado… Eu acordo toda noite com o som do trovão. Assim eu fui, assim eu vou… É de se esperar que certos edifícios não possuam chão.

Logo antes do amanhecer, João acorda. 

João acorda sem perceber que dormiu.

Havia João deitado a fim de fazer uma horinha? Ou bebeu demais? 

Já são incontáveis as músicas que não consigo escutar por causa de coisas que parece que nunca conseguirei resolver. O quão decepcionante é um arco incompleto? Um processo infinito que se retroalimenta em falhas. Você devota algumas horas pra te contarem uma história e muito antes dos créditos rolarem a imagem congela. Ponto de quebra, cataclisma, um novo verso. Os dias se dão com regularidade, de novo e de novo, um dia indistinguível do próximo. Uma longa continua corrente… E de repente… Ponto de quebra, cataclisma e era só o refrão.

João fixa seus olhos no teto e fica maravilhado com o fato de que cada curva do gesso possui uma característica única. 

João nunca foi de contemplar o teto ou as nuvens no céu, nunca foi de se atentar a nada que estivesse acima de si.

Às vezes as músicas que me doem são as únicas que quero escutar, sentir, lembrar, deixar me abraçar… Mesmo que numa breve ilustração mentalizada. No afago, não apago, mas desafogo. Fazendo alusão as várias óticas da percepção… Vou questionando aqui e acolá, sobre os porquês… Um biológico homem positrônico que diz olá e acena tchau, deslizando ao som de um samba elétrico.

João se arruma e sai para o trabalho. Abraçado pela chuva que cai na cidade. 

Em sua caminhada João se atenta pro quão lindo é o céu cinza daquela manhã de segunda-feira. 

Enquanto atravessava uma avenida, João é atingido por um carro que vinha derrapando em toda velocidade no asfalto molhado. 

Logo depois do amanhecer, João morre. 

João morre sem perceber que viveu. 

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